O Upcycling* como caminho para reduzir o desperdício na moda

No mês passado eu e a Heloísa (minha irmã que também estuda moda) estivemos em São Paulo, no Feed Dog Brasil, Festival Internacional de Documentários de Moda, que nasceu em 2015, em Barcelona, para discutir e celebrar o mundo da moda e que trouxe ao Brasil 13 filmes nacionais e internacionais. A programação estava incrível e eu muito animada para assistir o “Out Of Fashion”, um documentário da Estônia (o nome original é Moest Väljas) que apresenta a estilista estoniana Reet Aus que trabalha com upcycling há mais de 15 anos, e que ainda não tinha chegado ao Brasil (aliás, ainda não está disponível, infelizmente).

Quando falamos em moda ética e responsável, todos indicam o documentário ‘The True Cost’ (disponível no Netflix), que é super importante e aclamado, mas o ‘Out Of Fashion’ mostra muito a questão do desperdício nas confecções que produzem para os grandes varejistas e como a estilista aborda o upcycling em larga escala*, trazendo para quem assiste, um olhar diferente sobre o assunto.

No documentário, a estilista compra uma calça da Zara e sai em busca de onde e quem produziu aquela peça, o que a leva numa jornada pela Europa, em plantações de algodão na América Latina até o epicentro da produção em massa em Bangladesh, onde ela encontra condições de trabalho totalmente problemáticas e desperdício imenso. Lá, ela faz uma parceria com a empresa que produz para marcas fast-fashion para criar uma coleção usando os retalhos que sobram da produção e então apresentar essa coleção para os lojistas.

Eu acredito que é muito importante falarmos sobre a questão do desperdício e das soluções para isso, em grande e pequena escala. Reet Aus se questiona no documentário qual o real impacto que ela causa trabalhando em pequena escala e como é importante o upcycling atingir também as grandes indústrias. Isso porque o upcycling é bem possível e importante em pequenas produções, mas é absolutamente necessário para os grandes, pois são eles que ditam muitas das regras do jogo e causam um impacto gigantesco.

É muito mais simples (mas não fácil) para os pequenos negócios reduzirem o desperdício têxtil, já que a cadeia de produção não é tão segmentada, mas quando falamos em grandes confecções (como as que produzem para grandes varejistas)o buraco é mais embaixo. O documentário mesmo mostra essa cadeia de produção que atravessa oceanos e países e como são comprados muitos metros de tecidos a mais, os muitos erros no corte e montagem e quanta matéria-prima é desperdiçada em todo caminho até a roupa ser vendida.

O que me impressionou muito foi pensar em upcycling em larga escala como ela fez: se criar roupas com os retalhos que sobram nas fábricas já é um trabalho bem minucioso e especial em pequena escala, imagina fazer isso com 100x mais material e muito mais pessoas envolvidas no processo? Eu, que trabalho há anos com upcycling em pequena produção, achei muitoooo desafiador e colocou muita luz sobre como eu enxergava esse processo.

É muito urgente e necessário enxergar outras formas de fazer moda, e esse documentário fala muito disso. Como diz Ronaldo Fraga:

“Fazer roupa todo mundo faz, aliás, a gente nem precisa mais de roupas. O mundo não precisa mais de roupas (…)Ele precisa de peças como roupa que contem histórias, que cantem, que sussurram, que tem ali o canto da sereia, aquilo que te pega, aquilo que te leva.”

Existe outro jeito de fazer moda. Upcycling é só um dos caminhos. Vamos pensar nisso?

 
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Upcycling no documentário ‘Out Of Fashion’
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