A máquina veio melhorar a nossa forma de fazer roupas?

Nos séculos XVIII e XIX a humanidade vivenciou a Revolução Industrial, que foi a substituição do trabalho manual pela produção mecanizada. Começou por volta de 1760 e foi se desenvolvendo com o aprimoramento das máquinas a vapor. Lá por 1860, com a chegada da eletricidade, dos combustíveis derivados do petróleo, da invenção do motor a explosão e do desenvolvimentos dos produtos químicos mais países foram se industrializando e veio a manufatura em massa. Já no século XX, a chegada da tecnologia foi considerada a 3º Revolução Industrial, pois a invenção do computador e dos telefones trouxe importantes transformações. Nos dias de hoje, o que vêm ganhando força na indústria é a automação e assim estamos nos encaminhando para o que muitas pessoas chamam de 4º Revolução Industrial, onde as fábricas precisarão de cada vez menos pessoas na linha de produção.

O Robô que costura

Quando falamos em confecção de roupas é um pouco esquisito pensar em automação, já que os tecidos são maleáveis e é difícil imaginar que um robô e suas ações matemáticas consiga lidar com dobras, curvas, encaixes e diversas situações em que o ‘tecidos tem vida própria’. Além disso, fazer roupas requer olhos atentos e mãos ágeis para ajustar o tecido durante o processo de costura. Porém, agora nasceu o primeiro robô que costura…

Após anos de pesquisa, uma empresa dos Estados Unidos chamada Softwear Automation criou um robô que costura. Ok, não é bem um robô tipo Hollywood, mas uma máquina chamada Sewbot que inicialmente costurava coisas simples, como tapetes, mas que hoje produz camisetas e até calças jeans. A máquina produz 1142 camisetas em oito horas, sendo que 10 humanos produzem 669 peças no mesmo tempo. Sewbot produz o mesmo que 17 humanos. É uma camiseta produzida a cada 22 segundos.

As pessoas compram em média 11 bilhões de camisetas por ano, então essa invenção é um prato cheio para as grandes fast-fashion: na linha de produção automatizada cada camiseta custa $0,33. Para produzir em Bangladesh o custo é de $0,22 (de acordo com uma estimativa do Instituto de Trabalho Global e Direitos Humanos). Se fosse produzida nos Estados Unidos, por trabalhadores americanos, o custo seria de $7,47.

O CEO da Softwear, Palaniswamy Rajan falou que apesar de produzir com mais qualidade que os seres humanos, a máquina tem suas limitações e nunca fará um vestido de noiva, por exemplo, mas que pode atender o grosso do setor (aqui ele provavelmente quis dizer os grandes varejistas, já que seu primeiro cliente é a Adidas).

Solução para os trabalhadores explorados?

Eu sempre falo aqui sobre a situação dos trabalhadores de confecções que atendem muitos varejistas: salários absurdamente baixos, jornadas de trabalho exaustivas, pouca segurança, privação de liberdade… (e não só os varejistas famosos por explorar mão-de-obra, mas pertinho da gente, na nossa cidade, existem pessoas costurando por R$1,00 / 1,50 por camiseta para atenderem o comércio local que vende “barato”). Mas e se o trabalho dessas pessoas for substituído por máquinas? O que vai acontecer com elas que já são tão exploradas? A ideia dos trabalhadores fazerem um trabalho mais artesanal, com salários mais elevados, é muito interessante, mas na vida real não vai acontecer desemprego em massa e a piora da situação atual? Gostaria muito de ter essa resposta, mas honestamente não sei. Estamos em uma sinuca de bico, já que de um lado as pessoas ganham mal e são exploradas e do outro lado não têm emprego: qualquer uma das situações é péssima. Lembrando que estamos aqui falando da indústria que emprega uma a cada seis pessoas no mundo, em sua maioria mulheres, então é um assunto bem complexo para refletirmos.

No mundo ideal haveria equilíbrio, as máquinas poderiam existir com humanos, produzindo peças mais simples e os trabalhadores ganhariam mais para produzir roupas mais elaboradas. Porém, basta um olhar na história para sabermos que é pouco provável que isso aconteça tão cedo.

Incentivo ao consumismo?

As fast-fashion se baseiam no tripé baixo custo de produção x produção rápida x preços finais baratos para que o consumidor compre com frequência, mais e mais, e assim a roda dos lucros continue girando. Será que uma produção mecanizada e barata não incentivará ainda mais o pensamento de consumo desenfreado e desatento que vemos hoje em dia?

Exploração da terra, gasto irresponsável de água, mais roupas e tecidos descartados sem preocupação… Não deveríamos estar fazendo um movimento contrário? Produzir menos, com mais cuidado, pagando de forma justa quem faz nossas roupas e valorizando o trabalho humano, de gente como a gente?

Um problema travestido de solução

“Fazer de modo eficaz algo que nem deveria ser feito não é motivo de alegria” Herman Daly, economista do Banco Mundial

Já são produzidas 80 bilhões de peças de roupas por ano no mundo e há uma estimativa de que 30% dessas peças não são usadas. Será que precisamos mesmo de uma máquina para acelerar o processo e fazer ainda mais roupas?

A empresa que criou Sewbot argumenta impactos positivos, como a redução do desperdício de materiais e também da pegada de carbono, já que a produção é local e próxima do consumidor, não do outro lado do oceano. Rajan, o CEO, fala também que acredita que o trabalho exploratório vai diminuir com a automatização (ingênuo demais para um CEO?) e que apesar da ansiedade sobre a perda de empregos precisamos seguir em frente e tentar descobrir como transformar nossa economia (como se as grandes empresas estivessem muito interessadas em transformar a economia para o bem geral).

Pelo meu olhar, ao removermos o artesanato, o trabalho humano, a qualidade artística, removemos também a humanidade das nossas roupas e acabamos produzindo uniformes. Somos transformados em meros compradores. A roupa carrega a energia de quem faz, ela é como uma armadura que vestimos para enfrentar o dia-a-dia. Somos todos interdependentes, deixar que uma máquina faça as roupas que nos acompanham todo os dias é perder a conexão com nossos iguais, aos pouquinhos. Para mim, fazer roupa é um ato de amor e cuidado, quase como cozinhar para quem a gente ama. As máquinas podem chegar para nos ajudar a melhorar o que fazemos, mas que a gente nunca esqueça a humanidade por trás do que nos veste.

 

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Sewbot, o robô que costura: uma reflexão
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