Quero trazer pra cá uma discussão que apareceu semana passada no meu Instagram e que eu acredito ser muito importante discutir: o quanto os rótulos ‘sustentáveis’ podem nos desviar do caminho real e possível da sustentabilidade.

Sigo uma digital influencer* que fala sobre sustentabilidade e ela comentou há uns dias a posição de duas blogueiras que fizeram um vídeo contando que estavam deixando o movimento Zero Waste porque simplesmente não conseguiam chegar ao tal lixo zero.

Deixa eu contextualizar: o movimento Zero Waste, ou desperdício zero, é um movimento com a proposta de zerar o lixo que produzimos. Começou com um grupo de pessoas que repararam nos seus lixos e puxaram para si a responsabilidade por ele (algo que todos nós deveríamos fazer). Vêm ganhando espaço e nos traz uma nova perspectiva sobre a sustentabilidade, já que o próprio conceito ‘sustentável’ vem evoluindo. Se antes tínhamos a reciclagem como o grande símbolo de sustentabilidade (uau, ele recicla o lixo!), hoje não faz mais tanto sentido, já que aprendemos que nem tudo que é reciclável é efetivamente reciclado.

A verdade é que quando começamos a pesquisar sobre o movimento e entrar nesse universo, o nosso olhar sobre o lixo — e claro, sobre o consumo — muda muito. Rola aquela tela azul! A gente fica ‘wow, peraí, olha só todo esse lixo! Esse copo onde eu bebi água por 30 segundos vai existir até depois que eu morrer’. Um pacote de biscoito, um saquinho para embalar frutas, isopor com 4 pãezinhos de queijo — é muito lixo no nosso dia-a-dia que nós não questionamos e tratamos como natural.

Precisamos mesmo de rótulos?

O questionamento que gostaria de trazer hoje é sobre o quanto o rótulo de zero waster (e tantos outros, como o veganismo) se encaixa de verdade na nossa vida e traz equilíbrio e possibilidade de escolhas mais conscientes e não se torna uma prisão ou fonte de frustração. As duas blogueiras que contaram em vídeo que estavam abandonando o movimento porque não conseguiam chegar ao lixo zero deixam muito claro, para mim, que o radicalismo não é o caminho, porque sustentabilidade também é equilíbrio. Se decido estar em um movimento, que ele me traga oportunidade de repensar conceitos, liberdade de escolhas e novas perspectivas, e não frustração e sentimentos de incapacidade.

Sim, eu sei que as vezes a gente se frusta por não conseguir levar o estilo de vida sustentável que gostaria, mas é importante lembrar que não existe um fiscal da sustentabilidade (nem do veganismo, nem do zero waste, nem da moda sustentável), ou pelo menos não deveria existir. Se você encontrar algum, corre! É a gente e a nossa consciência sobre a importância de se responsabilizar pelo nosso impacto. As vezes começa com passos de formiguinha, com uma ecobag, um copo reutilizável, comprando à granel, uma roupa produzida eticamente, que no final nos levam à uma vida verdadeiramente mais equilibrada. É uma reação em cadeia — uma coisa leva à outra, como peças de dominó enfileiradas: um mundo de mudanças a um só toque.

Vou contar algo sobre mim que quase não conto: quando eu comecei a trabalhar com moda responsável, vivenciei muitas e muitas vezes essa sensação de não estar fazendo o suficiente. Quanto mais eu lia sobre o assunto, mais me frustava por não atingir a perfeição sustentável no meu trabalho; Eu queria fazer roupas 100% sustentáveis, mas o quanto isso é possível dentro do nosso sistema de moda e das minhas próprias possibilidades criativas e financeiras? Aceitei minha limitações e as limitações da indústria que eu tanto amo e me tornei uma designer melhor, porque busco diariamente caminhos para criações mais sustentáveis ao invés de me paralisar pelo fato de que ainda não consigo fazer uma roupa totalmente ecológica. Abandonar essa busca pela perfeição, no trabalho e na vida, me trouxe mais leveza para levar a vida que escolhi.

É importante falar que uma vida com menos impacto requer sim que abandonemos algumas coisas, porque simplesmente não é possível falar em vida sustentável no estilo American Way of Life. Tudo é sobre escolhas. E quando a gente encara uma vida mais sustentável não como uma vida de privações, mas sim de desafios, muitas opções e liberdade de escolhas, trazemos o equilíbrio necessário para viver bem, dentro dos limites da Natureza e da própria capacidade humana.

Rótulos pra quem?

Outro ponto que eu gostaria de tocar, que também apareceu nessa discussão no Instagram, é sobre o quanto os rótulos podem afastar as pessoas,tirar gente que está na busca da rodinha. Claro que eu acho lindo ver todo lixo de um ano inteiro dentro de um pote, mas quantos de nós estão prontos para levar uma vida assim? Será que não afastamos as pessoas ao nos rotular e rotulá-las? Se você não atinge o lixo zero então não deveria estar no movimento Zero Waste? Se você come uma torta num aniversário não pode participar do movimento vegano? Se a sua roupa não é de algodão orgânico então ela não é ecologicamente correta? O quanto isso é benéfico para nossas vidas?

Eu gostaria muito de ter uma resposta, um jeito certo de fazer as coisas, um caminho fácil para todas essas questões. Mas infelizmente não tenho. Sustentabilidade nos tira da zona de conforto, na vida e nos questionamentos. Faz a gente repensar conceitos toda hora — e isso é bom.

Por hora, vou deixar alguns links para quem quiser se aprofundar no assunto, encontrar outros pontos de vista e falar mais sobre isso:

3 jeitos fáceis de reduzir seu lixo em 2018

Essas mulheres estão levando uma vida sem lixo e mostrando que você também pode fazer o mesmo

O que é lixo, quais são suas categorias e por que devemos (sim) nos preocupar?

Zero Waste: o futuro da consciência ambiental

Vegana e feminista: Sobre não hesitar em aderir aos rótulos


*Ela mesma não se considera uma digital influencer e eu não sou lá muito fã do termo, mas é o ideal para contextualizar a pessoa

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Quando rótulos sustentáveis viraram amarras?
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